Pasto Estrelado

Meu pai já me dizia, quando saia da rotina e ia para algum lugar diferente ou distante de casa: “Vou levar as vistas pra pastar!”.
Pois então, levando eu dia desses as vistas para um pasto novo, coisa que um ilustrador deve fazer com alguma freqüência, para o bem da profissão, vi uma cena que poderia facilmente passar despercebida, mas que não me escapou.
Bem, não era um dia comum. Eu circulava por São Paulo acompanhado de meus filhos, de uma sobrinha e de minha esposa. Era um sábado e tínhamos acabado de sair da Praça da Liberdade, onde havia uma luz fantástica e um vento estranho balançando uma infinidade de enfeites japoneses enormes. Eu me sentia meio embriagado pela luminosidade do dia e pelo movimento que o vento dava aos enfeites, enquanto mostrava a cidade para os olhos de meus filhos, acostumados ao verde de Atibaia, onde vivemos, e para os olhos mineiros de Juju, minha sobrinha.
Para quem vive cercado de montanhas e árvores, a cidade grande é pasto valioso! Há muito que se ver!
Numa curva próxima ao viaduto que liga a Avenida Liberdade à Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, fui tomado por uma sensação incomum ao perceber um detalhe destacado na imensa colcha de retalhos da cidade. Havia ali uma casa antiga, que mal se sustentava, mas que tinha a sobriedade de uma tia velha.
O caixilho torto queria revelar o interior sombrio do prédio para o mundo, mas, para evitar que isso acontecesse, o proprietário o tapara com umas tábuas apodrecidas e tijolos mal assentados. Sobrava, assim, pouco espaço para quem estava dentro da casa ver o lado de fora, e vice-versa.
O relevante nisso tudo era a presença de um meninote de cinco ou seis anos, olhos arregalados de assombro, assistindo curioso o mundão de telhas, antenas e paredes à sua frente.
Eu procurava uma saída para a Avenida 23 de Maio. Íamos para o planetário do Ibirapuera apreciar as estrelas.
Parei o carro e fiquei olhando para o menino; ele para mim.
Uma eternidade de dois minutos.
Todos no carro olharam para o garoto que, tendo o rostinho encoberto por uma chupeta azul, nos acenou.
O menino era lindo e parecia preso dentro da casa, contra a própria vontade.
De repente, o garoto subiu no parapeito da janela despencada, abriu seus bracinhos magros e… saltou em direção às primeiras estrelas da noite.
A luz lilás do fim da tarde era tão fantástica que, naquele momento não estranhamos a cena. Talvez fosse um sonho, onde tudo é possível.
Meia hora mais tarde, sentados nas cadeiras confortáveis do planetário pudemos ver, no céu estrelado da abóbada artificial, o garoto passar rapidamente em vôo rasante!

Um menino olhava o mundo da janela da casa velha no bairro da  Bela Vista em São Paulo

O menino olhava o mundo da velha janela

3 Respostas

  1. Iara Disse:

    Um dia destes também passei por este mesmo lugar e o Castelinho da Brigadeiro me chamou muito a atenção…há muito não passava por ai… muito boa tua história. E já há muito não ouvia esta expressão:
    “Vou levar as vistas pra pastar!”.
    Saudades do velho Guilherme.
    Abraço.

  2. Lúcia Vulcano Disse:

    Me lembrou o Pequeno Príncipe, esse garoto.

  3. Marcelo Raydo Disse:

    Uso esta expressão copiado do Mauro…e até hoje não passeio, levo as vistas pra pastar!

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