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No dia em que eu morri, e isso acontece com todos, mais cedo ou mais tarde, fiquei parado, por um bom tempo, num escuro de doer, esperando o bem adquirido.
“Que bem?” você deve estar se perguntando. Eu explico, pois tenho a eternidade para fazê-lo. Além do mais, uma boa conversa é algo que eu não dispenso nem morto. Desculpa-me o trocadilho.
Bem, eu nunca tive muita paciência com esse negócio de tele…telemarketing. Sim, de call center, essas coisas que andam muito na moda atualmente.. Mas, em um fim de tarde, há tempos atrás, ligou-me uma tal moça de voz muito suave e charmosa, chamada Angélica. A-n-g-é-l-i-c-a. Sim, era esse o nome da criatura.
Me ofereceu um cartão de crédito que, vejam vocês, me dava o direito de acumular pontos para minha, absurdo dos absurdos, entrada no Reino dos Céus. Hoje eu fico até meio envergonhado de dizer, mas à época…
A princípio, como de costume, eu recusei. Ela, em sua sondagem, calou-se e deixou que eu manifestasse o meu descrédito com relação aos telemarketeiros em geral. Mas, passados alguns instantes, Angélica, aquela diaba, me convenceu a ouví-la; o canto da sereia. Ah, o pecado da luxúria!
Eu nunca fui católico, evangélico, espírita. Não chegava a ser ateu, ainda que religioso eu não me considerasse. Mas Angélica, aquela fada, me fez assumir crenças que eu mal conhecia, rezar credos que eu desconsiderava, isso em apenas uma chamada. Recursos das vendas por telefone. Aquele povo tem o script da persuasão.
Eu não tinha nada a perder, afinal de contas. Aceitava o cartão, recebia-o em casa, desbloqueava-o, usava-o, não pagava anuidade, e, assim que partisse para o outro lado do muro, para o desconhecido, teria milhas acumuladas, que poderiam ser facilmente trocadas nos portões do Paraíso. Minha entrada e estadia, em tão aprazível destino, estariam garantidas.
Eu não teria aceitado esse negócio evidentemente, em outras circunstâncias, mas a vendedora era Angélica, aquela deusa pagã.
Bem, recebi o tal cartão, envelopado em papel azul da cor do céu. Desbloqueei e usei.
Usei o quanto pude, o mais que pude. Tudo pelo bem de minha “alma imortal”; palavras de Angélica, aquela falsa.
Geladeira nova , tome cartão. Carro novo, no cartão. Combustível para o carro novo, cartão. Aditivo para o combustível do carro novo, sempre o cartão. E tome cartão, sempre e mais. Pontos e pontos acumulados. Uma obsessão! Ah, o pecado da vaidade!
O fato é que o dia de minha morte chegou. Ainda me lembro que a conta do hospital, onde fiquei internado foi paga, como era de se esperar, com o cartão. Pontos e mais pontos acumulados!
O hospital saíra muito caro, mas a esperança de desfrutar dos benefícios prometidos não tinha preço.
Enfim, minha estadia no hospital chegara ao fim. Eu estava finalmente do outro lado, onde todos sabem que chegarão, mas não sabem como.
Aos poucos fui tomando conhecimento de onde estava. A escuridão inicial foi-se desfazendo e minhas vistas, aos poucos, iam construindo a nova paisagem onde me encontrava. Uma encruzilhada: de um lado o azul portão do Céu, do outro as enormes labaredas do impronunciável.
Entre o desejável Céu e o temido inferno, uma cabine telefônica. Como não houvesse ninguém guardando as duas entradas, dirigi-me, como era de se esperar, à cabine. Retirei o aparelho do gancho e coloquei-o no ouvido.
_ Alô. Ouvi a doce voz de Angélica.
(continua)
























outubro 2nd, 2008 a 20:43
MARAVILHA!
Têm vida após a morte?
Essa Angelica!
Muito bom ler seus textos.
outubro 3rd, 2008 a 2:33
Aguardo próximos capítulos ansiosamente.
outubro 4th, 2008 a 9:37
quero ler o resto!
outubro 4th, 2008 a 13:20
A figurinha da Angélica que você desenhou denunciou a Coisa. Você estava acumulando pontos para ir para o inferno. Luxúria, vaidade e outros pecados provocados pela obsessão. O demônio é mulher com nome de anjo. Ao invés da riqueza antes da morte em troca da alma, ele se modernizou: callcenter e cartão de crédito. Promessa de vida no paraíso depois da morte, a mesma que a Igreja Católica oferece se você for um bom católico, seja lá o que for isso. Ou o Edir Macedo, sei lá.
Eu sou ateu.
abs.
Ed.
outubro 9th, 2008 a 9:26
Angélica das ancas fartas, cintura fina e olhar sensual.
Também sou ateu. Juro por Deus!