O Bom Caipira

Olha, esse negócio de caipira bom e ingênuo é uma raridade em nossos dias, se é que houve realmente, algum dia, o caipira bom e ingênuo, como prega o estereótipo.
Mas, eu devo admitir que tive uma experiência, tempos atrás, com um sujeito que, à sua maneira, cumpria bem tal papel. Ele certamente não tem a menor idéia de que é um possível caipira. Afinal de contas, são poucas as pessoas que têm consciência do grupo, ou tribo, ao qual pertencem. Então, para não criar uma situação constrangedora, não vou citar o nome do indivíduo aqui. Quem nesse mundo gostaria de ver-se apresentado como caipira, o bom e tradicional caipira? Acho que ninguém, ainda que eu considere esse ser mitológico uma criatura valorosa.
Nosso amigo, a quem chamarei Ananias, é reconhecido pela lentidão com que as idéias são formadas em seu cérebro e pela forma como as palavras surgem, quando surgem, em sua boca. Também é comentada a maneira como exerce sua função de biscateiro. Faz de tudo um pouco, de forma vagarosa e com a ausência da virilidade dos vencedores.
Mas, mesmo com todos os indícios da decepção instalados, resolvi chamá-lo, por pura curiosidade, a trabalhar em minha casa para a fazer um bico mais demorado: um muro de três metros de altura, por quinze de comprimento.
Ananias ouviu meu convite, pensou calmamente a respeito, e, sem nenhuma convicção, aceitou fazer o serviço.
Mediu o espaço onde a empreitada seria realizada e conjeturou por algumas horas, enquanto tentava livrar-se, com movimentos lentos dos braços, de meus cachorros que o lambiam e importunavam.
Por fim, deu início à obra.
Eu, vez por outra, o observava. Sua lentidão era compensada com um trabalho minucioso e cheio de arte. O pobre homem era apresentado como lento, mas na verdade era um artista do cimento. Não me espantaria se minha casa caísse com um terremoto médio, mas o muro de Ananias, nunca! A muralha da China em meu quintal!
Depois de uns vinte dias, Ananias chegara àquele ponto do trabalho em que o muro já podia ser reconhecido como tal.
Todo dia a mesma coisa: bicicletinha estacionada, falta de pressa, tijolos assentados com filosofia, soneca pós-almoço.
Quando a obra chegou à metade, comecei a ficar preocupado com o Ananias. Ele ainda não havia pedido um vale, um adiantamento; essas coisas que os pedreiros sempre pedem.
- Seu Ananias, quer que eu pague a metade do valor pro senhor? A obra já está adiantada, não é? – eu perguntei.
Aí veio a resposta mais direta e surpreendente que eu já ouvi. O Ananias, ao contrário dos especuladores do mercado financeiro, ou dos políticos da era pré-sal, que não têm receio de meter a mão na grana alheia, era, além de um artista, um sujeito cruamente sincero e honesto:
- Rapaz, não faz isso não! – ele disse – Dinheiro em trabalho inacabado é o diabo na porta do puteiro!

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