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O bom seu Amarantino, homem de visão ingenuamente preconceituosa dizia, e eu me lembro bem, como se fosse ontem: “Essa cambada de vagabundo tinha é que arrumar emprego, pegar no pesado, ao invés de ficar mostrando as vergonhas. Esses cabeludos vão é acabar com a descência do mundo”. Assim mesmo, desse jeitinho, dizia seu Amarantino.
Ele referia-se a John Lennon e sua digníssima esposa. Enquanto Lennon e Yoko Ono mostravam-se na “intimidade”, seu Amarantino, coitado, mal podia ver o próprio corpo no espelho. Sacudia de segunda a segunda nos trens de subúrbio, logo às cinco e trinta da madruga.
Depois que o ilustre casal revelou suas nádegas para os fotógrafos, o velho Amarantino, ou seu Tino, como era conhecido, tomou os ilustres cônjuges como os culpados pelos males da humanidade. Não adiantava retrucar, dizer das intenções pacifistas do casal. Seu Tino não engolia. Para ele, paz era suor, comida na mesa e vergonha na cara. “Isso é a calamidade, é a obra do vermelho”; dessa forma o velhinho enrugado referia-se ao dono das profundezas do inferno.
Em oito de Dezembro de 1980, eu me lembro que o natal estava chegando, seu Amarantino resolveu sair da rotina, parou no boteco, coisa rara de ver o infeliz fazer. Encheu a cara de cachaça e, voltando a casa, foi atropelado por uma composição ferroviária, ao atravessar a linha. Naquele mesmo momento, John Lennon era assassinado em New York.
Ao ser acudido, prestes a morrer, seu Tino apenas teve o tempo de suspirar algo parecido como: “All you need is love!”























