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– Alô, disse-me Angélica, antes mesmo que eu compreendesse completamente a paisagem que me rodeava.
Não pensem vocês que depois da longa pausa escura, eu pudesse me recordar de Angélica. Não, as fichas, como numa cabine telefônica, iam caindo aos poucos. As lembranças de um falecido são mais lentas que as dos vivos.
Minha mente ainda estava turva, assim como a estranha paisagem à minha volta. Aos poucos fui me recordando do Blue Card.
– Alô, Angélica! – Eu respondi – Como é que eu entro pelo portão do Paraíso? Como uso meus pontos?
– Você tem um cartão telefônico aí? – Perguntou-me a voz sensual.
– Não!
Afinal de contas eu não sou egípcio e, por isso, não fui enterrado com moedas de ouro, fichas ou cartões telefônicos. Meus bolsos estavam completamente vazios.
– Há alguém no portão do Céu? – Perguntou Angélica.
Coloquei minha cabeça para fora da cabine e pude confirmar que o portão estava vazio.
– Não, não tem!
– Veja se tem alguém no pórtico infernal – Disse a doce voz da diaba.
Olhei, pelo vidro, em direção ao flamejante portão às minhas costas. Naquele momento, um vulto pôde ser visto ali.
– É! Tem, sim – eu disse.
– Pois então, vá até lá – Angélica disse isso e desligou o aparelho na minha cara.
Não me restava outra coisa a fazer, teria de ir até o vulto.
– Maldita Angélica, se te pego! – falei sozinho. Ah, o pecado da ira!
A luz do holofote piscava sobre a cabine e nos intervalos, entre uma piscada e outra, o caminho era iluminado apenas pelas labaredas infernais.
A coragem é um bem precioso que sempre nos falta quando indispensável.
Caminhei lenta e relutantemente até o portal em chamas.
O guardião do inferno, para minha surpresa, não era um homem, um monstro ou um diabo qualquer. Atrás das grades borbulhantes via-se, sentada numa banqueta, uma velhinha gorducha e simpática com um vestidinho amarelo de chita florida, que só não podia ser entendida como uma pessoa comum pelos corninhos que despontavam do topo da cabeça. Ela tricotava calmamente.
– Boa noite! – Eu disse.
– Noooite, meu filho! – Ela respondeu com um sorriso maroto no rosto gorducho.
– Hoje num chove não – Completou, olhando para o céu denso.
Que diabo de coisa esquisita, eu pensei.
– Me diga, minha boa senhora, quem é que toma conta daquele portão ali? – Apontei para o portão azulado do Céu.
– Hii, meu filho, aquilo ali tá fechado faz tempo, sô!
– Mas, como é que a gente entra lá?
– Olha, eu tô aqui faz uma eternidade de meses e ainda não vi ninguém entrando, não. Nem saindo!
Eu percebi logo que devia acreditar naquela senhora com ares de beata de igreja. De seu olhar atento nada escapava e talvez por isso estivesse vigiando o portal flamejante.
– Sei – eu disse enquanto arrumava um cantinho seco no chão enlameado para sentar-me.
Sentei-me, pois defunto sem corpo também cansa. Na verdade eu não tinha certeza de estar morto, mas olhando para os bizarros portões, além do fato de haver neles uma velhinha com cornos servindo de porteira, só podia indicar que minha passagem para o além havia ocorrido. Ou então era um estranho pesadelo. Tétrico, né? Mas, fazer o quê?
Fiquei ali, sentado, sem saber o que pensar ou para onde ir, com a nítida impressão de que Angélica, aquela malvada havia me enganado. Ah, saudades do PROCON! Do código de defesa do consumidor!
De repente, sentia sono e cansaço. Precisava deitar-me. É, nós também nos cansamos!
– Escuta, minha senhora – eu disse. Não haveria um cantinho seco aí onde eu pudesse descansar um bocadinho?
– Sabe menino, se entrar aqui não sai mais não. Além do mais, pra entrar tem que apresentar a papelada. Tem que cumprir as exigências, sabe?
– Que papelada? – Perguntei.
– Olha, tem que passar no cartório e tirar um atestado de maus antecedentes, certidão de mau-caratismo, comprovante de desonestidade. Me traga três vias com firma reconhecida. Aí, enquanto eu providencio a entrega dos papéis a meu superior, você espera de três dias a quatro meses. É lógico que sempre há um jeitinho de facilitar, mas, ultimamente, tá mais difícil de agilizar, sabe?
– E não haveria um lugar qualquer, aqui, do lado de fora, onde eu pudesse descansar?
– Bem, descansar em paz mesmo, aquele descanso eterno gostoso, só lá no Céu, sabe. E a entrada principal, pelo que dizem, fica meio longinho, viu?
– Ah, tem uma entrada principal, é?
– Tem sim, menino. Esse portão que você tá vendo aí é o de serviço, sabe como?
– E como é que eu chego no principal? Eu perguntei.
– Sei não.
– E onde eu posso descansar por essa noite? Perguntei.
– Olha, me disseram que tem uns quartinhos pra alugar pras almas errantes solteiras. É só pegar um caminhozinho à esquerda ali. Tá meio amoitado na escuridão, mas se você for apalpando com o pé, você o encontra atrás daquela cabine telefônica.
Levantei-me, agradeci à boa diaba pela atenção e caminhei em direção à cabine. Pagar aluguel de quarto para solteiro, depois de morto? Era só o que me faltava!
Passei pela cabine e fui procurando o caminho no meio da escuridão, no meio do nada. A noite ia ser eterna!
(continua)
























