Bem, pretendo terminar essa minha história agora. Não vou abusar da boa vontade dos leitores só porque tenho todo o tempo do mundo para gastar. Isso não me parece justo.
Aos vivos que tiveram paciência de ler essa tétrica narrativa, obrigado. Aos que não tiveram, não tenho nada a declarar, pois certamente estão ausentes.
…
Depois de encontrar uma viela lamacenta no meio do matagal, atrás da cabine telefônica, comecei a andar apressado, impulsionado pelo medo e pelos maus presságios causados pela iluminação precária do holofote, que não parava de piscar. De repente, tropecei violentamente em um sujeito que se encontrava estendido, atravessado, no meio da viela.
O infeliz segurou meu pé e eu, assustado, tentei fugir, mas fui acalmado pelo pobre ébrio. Uma febre tomou conta de mim e mesmo suado pelo susto, tiritava de frio.
- E então rapaz, vai me soltar ou não? – eu perguntei.
- Calma sujeito! – ele disse, apoiando-se nos cotovelos. Você me tira do sono e ainda fica bravo?
Não vou entrar em detalhes a respeito de minha conversa com o infeliz, pois a história se estenderia demasiadamente, e isso me obrigaria a criar um quarto capítulo. Resumindo, descobri que o desgraçado era um corretor da bolsa de valores que havia morrido de infarto em um pregão. Coisa muito comum nos dias que correm. Ficamos amigos, se é que uma relação tão rápida exposta a uma situação de tal maneira adversa possa gerar algo semelhante à amizade. Mas, devido a meus calafrios febris, o miserável me emprestou por tempo indeterminado seu casaco sujo. Por falta de melhor agasalho, aceitei.
O fato é que alguém que empresta um casaco a um estranho, numa noite fantasmagórica e fria no limbo, não pode mesmo ter sucesso na bolsa de valores.
Agasalhado, segui meu caminho. Fui à procura dos tais apartamentos para alugar.
Eis que encontro, no meio de algo parecido com uma praça cinza, os tais prédios com quartos para solteiros. Entro e, na portaria, sou atendido por um senhor muito apático, entre pilhas de papéis inúteis, que me diz os valores dos quartos para o uso mensal.
- O uso dos quartos é individual. O pagamento adiantado! – ele disse.
Eu estava mesmo cansado e não sabia como pagar. Não tinha dinheiro nenhum comigo. Instintivamente, coloquei a mão no bolso do casaco que o ex-corretor, bêbado, havia me dado e, para minha surpresa, saquei uma nota de cem. Cem não sei o que, pois o dinheiro daquelas plagas não era conhecido. Mas estava impresso: 100. Digamos, cem alguma coisa.
Entreguei a nota para o velho, que a aceitou e, em troca, me deu uma chave enferrujada.
Não vou detalhar o estado em que se encontrava o quarto. Também não vou me aprofundar nas sensações desagradáveis da paisagem do entorno do hotel, nem dos hóspedes que ali se refugiavam. Eu os pouparei de tais descrições. Seu tempo é curto e precioso!
Tudo o que posso, e devo dizer, é que os dias passavam e que, em breve, eu teria de fazer um novo acerto mensal de minha hospedagem.
Assim, creiam, fui procurar emprego. Soube, por meio de um periódico local, muito mal diagramado, que uma empresa promissora precisava de um operador de telemarketing. Argh! Depois de ter sido tão ultrajantemente enganado por Angélica, aquela feiticeira, só me restava vender o Céu aos pobres e incautos mortais.
Daí os mais espertos leitores – mais espertos do que eu – poderão adivinhar sem dificuldades quem era minha gerente. Sim, queridos amigos, ela mesma: a fada, a feiticeira, a diaba, a bela e sensual Angélica. A princípio, enfeitiçado, apreciei sua gerência. Ah, sempre o pecado da luxúria!
Eu podia sentir seu hálito quente em minha nuca, sempre atenta às minhas metas de venda. Metas inviáveis, estabelecidas, certamente, por um ser desumano.
Meu salário pagava apenas minha hospedagem na espelunca. Eu não comia, evidentemente. Já não precisava cumprir certos rituais indispensáveis aos vivos.
Um dia, para resumir, cansei. CANSEI! Joguei tudo para o alto: roupas, cartões, a chave de meu quarto, metas, obediência, a atração irresistível de Angélica. CHEGA! Gritei em silêncio.
Acreditem, amigos. Os portões do Paraíso, que não ficavam tão longe, afinal, abriram-se. Dizer não ao indesejável me bastou. Não sei se a mesma fórmula serve a todos, mas a mim serviu.
Avistei imediatamente os dourados portões celestiais e me dirigi a eles.
Uns chatos ainda tentavam me distribuir panfletos do Heaven Express Card, do Blue Card, do Sweet Dreams Card, do Master Angel Card, entre outros. Mas eu os ignorei solenemente, e me apiedei dos infelizes. Todos ex-colegas de infortúnio!
Saibam: no verdadeiro Céu, no tal Paraíso, todo cartão, toda roupa, toda crença e rendas fixas são dispensáveis.
(FIM)
























