out 15

Bem, pretendo terminar essa minha história agora. Não vou abusar da boa vontade dos leitores só porque tenho todo o tempo do mundo para gastar. Isso não me parece justo.
Aos vivos que tiveram paciência de ler essa tétrica narrativa, obrigado. Aos que não tiveram, não tenho nada a declarar, pois certamente estão ausentes.

Depois de encontrar uma viela lamacenta no meio do matagal, atrás da cabine telefônica, comecei a andar apressado, impulsionado pelo medo e pelos maus presságios causados pela iluminação precária do holofote, que não parava de piscar. De repente, tropecei violentamente em um sujeito que se encontrava estendido, atravessado, no meio da viela.
O infeliz segurou meu pé e eu, assustado, tentei fugir, mas fui acalmado pelo pobre ébrio. Uma febre tomou conta de mim e mesmo suado pelo susto, tiritava de frio.
- E então rapaz, vai me soltar ou não? – eu perguntei.
- Calma sujeito! – ele disse, apoiando-se nos cotovelos. Você me tira do sono e ainda fica bravo?
Não vou entrar em detalhes a respeito de minha conversa com o infeliz, pois a história se estenderia demasiadamente, e isso me obrigaria a criar um quarto capítulo. Resumindo, descobri que o desgraçado era um corretor da bolsa de valores que havia morrido de infarto em um pregão. Coisa muito comum nos dias que correm. Ficamos amigos, se é que uma relação tão rápida exposta a uma situação de tal maneira adversa possa gerar algo semelhante à amizade. Mas, devido a meus calafrios febris, o miserável me emprestou por tempo indeterminado seu casaco sujo. Por falta de melhor agasalho, aceitei.
O fato é que alguém que empresta um casaco a um estranho, numa noite fantasmagórica e fria no limbo, não pode mesmo ter sucesso na bolsa de valores.
Agasalhado, segui meu caminho. Fui à procura dos tais apartamentos para alugar.
Eis que encontro, no meio de algo parecido com uma praça cinza, os tais prédios com quartos para solteiros. Entro e, na portaria, sou atendido por um senhor muito apático, entre pilhas de papéis inúteis, que me diz os valores dos quartos para o uso mensal.
- O uso dos quartos é individual. O pagamento adiantado! – ele disse.
Eu estava mesmo cansado e não sabia como pagar. Não tinha dinheiro nenhum comigo. Instintivamente, coloquei a mão no bolso do casaco que o ex-corretor, bêbado, havia me dado e, para minha surpresa, saquei uma nota de cem. Cem não sei o que, pois o dinheiro daquelas plagas não era conhecido. Mas estava impresso: 100. Digamos, cem alguma coisa.
Entreguei a nota para o velho, que a aceitou e, em troca, me deu uma chave enferrujada.
Não vou detalhar o estado em que se encontrava o quarto. Também não vou me aprofundar nas sensações desagradáveis da paisagem do entorno do hotel, nem dos hóspedes que ali se refugiavam. Eu os pouparei de tais descrições. Seu tempo é curto e precioso!
Tudo o que posso, e devo dizer, é que os dias passavam e que, em breve, eu teria de fazer um novo acerto mensal de minha hospedagem.
Assim, creiam, fui procurar emprego. Soube, por meio de um periódico local, muito mal diagramado, que uma empresa promissora precisava de um operador de telemarketing. Argh! Depois de ter sido tão ultrajantemente enganado por Angélica, aquela feiticeira, só me restava vender o Céu aos pobres e incautos mortais.
Daí os mais espertos leitores – mais espertos do que eu – poderão adivinhar sem dificuldades quem era minha gerente. Sim, queridos amigos, ela mesma: a fada, a feiticeira, a diaba, a bela e sensual Angélica. A princípio, enfeitiçado, apreciei sua gerência. Ah, sempre o pecado da luxúria!
Eu podia sentir seu hálito quente em minha nuca, sempre atenta às minhas metas de venda. Metas inviáveis, estabelecidas, certamente, por um ser desumano.
Meu salário pagava apenas minha hospedagem na espelunca. Eu não comia, evidentemente. Já não precisava cumprir certos rituais indispensáveis aos vivos.
Um dia, para resumir, cansei. CANSEI! Joguei tudo para o alto: roupas, cartões, a chave de meu quarto, metas, obediência, a atração irresistível de Angélica. CHEGA! Gritei em silêncio.
Acreditem, amigos. Os portões do Paraíso, que não ficavam tão longe, afinal, abriram-se. Dizer não ao indesejável me bastou. Não sei se a mesma fórmula serve a todos, mas a mim serviu.
Avistei imediatamente os dourados portões celestiais e me dirigi a eles.
Uns chatos ainda tentavam me distribuir panfletos do Heaven Express Card, do Blue Card, do Sweet Dreams Card, do Master Angel Card, entre outros. Mas eu os ignorei solenemente, e me apiedei dos infelizes. Todos ex-colegas de infortúnio!
Saibam: no verdadeiro Céu, no tal Paraíso, todo cartão, toda roupa, toda crença e rendas fixas são dispensáveis.

(FIM)

Portão do Céu

Portão do Céu

out 2

No dia em que eu morri, e isso acontece com todos, mais cedo ou mais tarde, fiquei parado, por um bom tempo, num escuro de doer, esperando o bem adquirido.
“Que bem?” você deve estar se perguntando. Eu explico, pois tenho a eternidade para fazê-lo. Além do mais, uma boa conversa é algo que eu não dispenso nem morto. Desculpa-me o trocadilho.
Bem, eu nunca tive muita paciência com esse negócio de tele…telemarketing. Sim, de call center, essas coisas que andam muito na moda atualmente.. Mas, em um fim de tarde, há tempos atrás, ligou-me uma tal moça de voz muito suave e charmosa, chamada Angélica. A-n-g-é-l-i-c-a. Sim, era esse o nome da criatura.
Me ofereceu um cartão de crédito que, vejam vocês, me dava o direito de acumular pontos para minha, absurdo dos absurdos, entrada no Reino dos Céus. Hoje eu fico até meio envergonhado de dizer, mas à época…
A princípio, como de costume, eu recusei. Ela, em sua sondagem, calou-se e deixou que eu manifestasse o meu descrédito com relação aos telemarketeiros em geral. Mas, passados alguns instantes, Angélica, aquela diaba, me convenceu a ouví-la; o canto da sereia. Ah, o pecado da luxúria!
Eu nunca fui católico, evangélico, espírita. Não chegava a ser ateu, ainda que religioso eu não me considerasse. Mas Angélica, aquela fada, me fez assumir crenças que eu mal conhecia, rezar credos que eu desconsiderava, isso em apenas uma chamada. Recursos das vendas por telefone. Aquele povo tem o script da persuasão.
Eu não tinha nada a perder, afinal de contas. Aceitava o cartão, recebia-o em casa, desbloqueava-o, usava-o, não pagava anuidade, e, assim que partisse para o outro lado do muro, para o desconhecido, teria milhas acumuladas, que poderiam ser facilmente trocadas nos portões do Paraíso. Minha entrada e estadia, em tão aprazível destino, estariam garantidas.
Eu não teria aceitado esse negócio evidentemente, em outras circunstâncias, mas a vendedora era Angélica, aquela deusa pagã.
Bem, recebi o tal cartão, envelopado em papel azul da cor do céu. Desbloqueei e usei.
Usei o quanto pude, o mais que pude. Tudo pelo bem de minha “alma imortal”; palavras de Angélica, aquela falsa.
Geladeira nova , tome cartão. Carro novo, no cartão. Combustível para o carro novo, cartão. Aditivo para o combustível do carro novo, sempre o cartão. E tome cartão, sempre e mais. Pontos e pontos acumulados. Uma obsessão! Ah, o pecado da vaidade!
O fato é que o dia de minha morte chegou. Ainda me lembro que a conta do hospital, onde fiquei internado foi paga, como era de se esperar, com o cartão. Pontos e mais pontos acumulados!
O hospital saíra muito caro, mas a esperança de desfrutar dos benefícios prometidos não tinha preço.
Enfim, minha estadia no hospital chegara ao fim. Eu estava finalmente do outro lado, onde todos sabem que chegarão, mas não sabem como.
Aos poucos fui tomando conhecimento de onde estava. A escuridão inicial foi-se desfazendo e minhas vistas, aos poucos, iam construindo a nova paisagem onde me encontrava. Uma encruzilhada: de um lado o azul portão do Céu, do outro as enormes labaredas do impronunciável.
Entre o desejável Céu e o temido inferno, uma cabine telefônica. Como não houvesse ninguém guardando as duas entradas, dirigi-me, como era de se esperar, à cabine. Retirei o aparelho do gancho e coloquei-o no ouvido.
_ Alô. Ouvi a doce voz de Angélica.

(continua)

 

Angélica

Angélica